Arquivo de Março de 2010

Escultura de Véio - Em exposição na Galeria Estação, São Paulo, até 15 de maio de 2010

O poema da volta

Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde na volta. (José Américo de Almeida, Antes que me esqueça, A Bagaceira)

No caminho da volta,
o amado pródigo
não se perde: renasce.
As flores da estrada
ganham viço
e uma fragrância nova,
um cheiro macio de perdão,
que se torna espera,
e de espera,
que vira celebração,
um perfume antigo
e fresco,
que lembra limão.

Em Ítaca, Penélope cose
toalhas para o banquete,
fronhas para o bom sono
e os lençóis da conciliação.
Não há ressentimentos
nem orgulho vão
na fidelidade discreta
desse gesto familiar.
Um xale lhe cobre os ombros
e os dedos macios
puxam a corda da lira
fazendo-a vibrar
em canções de amor
e gestas de esperança,
de paciência nada vã.

Volta bem
quem viajou leve:
cabelos à brisa do mar
e as mãos na cintura,
com braços por enlaçar
algum torso feito tronco,
um barco a navegar,
um berço de ninar,
um bote pra salvar.

Volta ainda melhor
quem sempre o faz
por um bule de café,
um parco naco de pão
e uma sutil ilusão
de quem só navega
para o eterno retorno,
sempre em busca
da paixão imóvel,
que não muda nem cala,
despedaçado o coração,
só pra depois o colar
caco a caco,
taco a taco,
toco a toco.

Assim são
os caminhos da volta:
sem medo e sem peso,
sem mágoa e sem rota.
Pois na volta
ninguém se perde.
Na volta
ninguém só pede.
E na volta
só se abre mão
da solidão.

JOSÉ NÊUMANNE PINTO

“Barcelona, Borborema” é o título de um poema de José Nêumanne que Gustavo Magno transmutou em uma jóia do novo gênero baião flamenco, com a participação do Quinteto Brassil. A música pode ser baixada em MP3, bastando acessar o site do compositor. O endereço é
www.gustavomagno.com

Gustavo Magno - Site oficial

  • Considerações sobre Poemas vis, de Gustavo de Castro
    José Nêumanne

    O verso canta
    e encanta.
    A estrofe atura
    e apura.

    O poema decanta,
    o poema espanta.

    A poesia depura.
    A poesia é obscura
    e, clara, cura.

    Resposta de Gustavo de Castro:

    Mas reverso
    Também canta
    E espanta
    Por que o reverso
    De todo verso
    Ainda é poesia
    É o viço do avesso.

    Tecendo o diálogo, Hildeberto Barbosa Filho por e-mail:

    A poesia é clara pura:
    impura é a alma do poema.

    A poesia encanta
    quando encontra a clara
    do poema.

    O poema se desencontra
    se não se lava na larva clara
    da poesia.


  • Instalação para um nada

    o esteta se estatela
    O ar tem jaulas.

    em língua de fogo
    as placas.

    Pisando em
    (o ovo ou a galinha?)
    brasas. Daniel
    e sua plateia de
    sátrapas.

    O nada
    arauta. À mancheia.

    Em manchas de
    Rorschach

    devolve o céu,
    o abutre do mesmo
    ferimento,
    um sangue por dentro
    de culatras.

    Astier Basílio

  • LEIA O ARTIGO:
    A poesia nunca concede, sempre depura. Dila e Gustavo de Castro trazem uma significativa contribuição ao gênero”, por José Nêumanne | © O ESTADO DE SÃO PAULO, 6 (sábado) de março de 2010, Caderno 2, p. D8. Fotos: Leonardo Soares A/E | Carol Matias |
    Acesse o site oficial: www.neumanne.com
  • \

    Edilamar Galvão - Poemas

    Veja imagem ampliada. Clique aqui!

    Galeria Estação - Véio - Esculturas

    - Próxima Página »